E na 5ª feira 10 de Julho de 2014 a Goldman Sachs salvou o BES e o Mundo

Na passada 5ª feira à noite a Goldman Sachs (GS) parece ter salvo o BES e o mundo.

Os sinais de problemas que o GES e o BES emitiram abalaram o mercado financeiro mundial durante todo o dia 10 de Julho. Contudo a nota emitida pela GS ao final do dia, dizendo que não havia motivo para preocupação acalmou os mercados.E porquê?

A primeira pergunta a fazer é porque terá sido necessário a GS falar? Porquê que apesar do BdP e do BCE estarem envolvidos no tema só o comunicado da GS fez com que o problema não escalasse a nível mundial?

Porque infelizmente, o clima regulatório da Europa carece de estabilidade e confiança do público. Os mercados financeiros necessitam de alguma orientação com credibilidade e o que ficou demonstrado na 5ª feira é que os mercados acreditam mais na GS do que no BdP e no BCE.

A crise da passada quinta-feira começou quando a Espirito Santo International não fez alguns pagamentos de dívidas. A ES International é uma grande empresa holding que detém, entre outras coisas, o Banco Espírito Santo (BES).

Apesar do BES ser relativamente pequeno à escala global, é um peso pesado em Portugal. O pior é que é grande o suficiente para que o governo Português, profundamente endividado, não tenha capacidade de resgatar o BES. Foi por isso que o medo de “contágio” surgiu tão rapidamente.

A União Europeia estabeleceu a fiscalização financeira conjunta em 2011. A Autoridade Bancária Europeia tem vindo a realizar “testes de stress” que, supostamente, são para descobrir esses problemas.

Quando se teme que um banco, representando apenas 0,3% do total de ativos bancários da zona euro, possa abalar os mercados financeiros de todo o mundo, mesmo por um curto período de tempo, algo não vai bem.

E o que não vai bem é a confiança. As pessoas, obviamente, não têm confiança na UE para supervisionar as suas próprias instituições financeiras.

Felizmente, a Goldman Sachs emitiu um boletim ao final do dia de 5ª feira, 10 de Julho, dizendo que os problemas do Grupo Espírito Santo são menores e não deverá ter implicações sistémicas.

Essa mensagem foi suficiente para acalmar os mercados, por agora, mas este episódio ainda é preocupante. O sistema bancário da Europa permanece frágil e ainda não há um acordo de topo em como mantê-lo estável, ou como ser capaz de parar uma crise maior.

Mas mesmo a Goldman Sachs tem limites.

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A Insustentabilidade da Segurança Social

No meu artigo a Raiz da Corrupção afirmo que a corrupção surge quando:

  • “Alguém com poder mas sem a propriedade, pode utilizar esse poder para obter vantagens a seu favor”.

No caso da Segurança Social já vai-se mais além. Já não alguém que se aproveita da propriedade de terceiros para obter vantagens a seu favor. Trata-se de um conjunto alargado de políticos de várias gerações e de vários quadrantes políticos, que entende que as poupanças feitas, ao longo de muitos anos, com muito sacrifício por todos os que labutam, podem ser manipuladas e utilizadas sem o consentimento dos proprietários.

Isto já não é corrupção, é roubo em larga escala feito pelos governantes aos seus concidadãos.

Abaixo reproduzo um texto que me chegou. Não sou o autor mas entendo que devo partilhar esta reflexão.

Também não conheço o autor e, desde já, peço desculpa pela liberdade de ter publicado o texto mas, entendo que é importante perceber-se um pouco da história da Segurança Social.

Início de citação:

A Insustentabilidade da Segurança Social

A Segurança Social nasceu da Fusão (Nacionalização) de praticamente todas as Caixas de Previdência existentes, feita pelos Governos Comunistas e Socialistas, depois do 25 de Abril de 1974.

As contribuições que entravam nessas Caixas eram das Empresas Privadas (23,75%) e dos seus Empregados (11%).

O Estado nunca lá pôs 1 centavo.

Nacionalizando aquilo que aos Privados pertencia, o Estado apropriou-se do que não era seu.

Com o muito, mas muito dinheiro que lá existia, o Estado passou a ser “mãos largas”! Começou por atribuir Pensões a todos os Não Contributivos (Domésticas, Agrícolas e Pescadores).

Ao longo do tempo foi distribuindo Subsídios para tudo e para todos. Como se tal não bastasse, o 1º Governo de Guterres (1995/99) criou ainda outro subsídio (Rendimento Mínimo Garantido), em 1997, hoje chamado RSI.

E tudo isto, apenas e só, à custa dos Fundos existentes nas ex-Caixas de Previdência dos Privados.

Os Governos não criaram Rubricas específicas nos Orçamentos de Estado, para contemplar estas necessidades. Optaram isso sim, pelo “assalto” àqueles Fundos.

Cabe aqui recordar que os Governos de Salazar, também a esses Fundos várias vezes recorreram. Só que de outra forma: pedia emprestado e sempre pagou.

Em 1996/97 o 1º Governo Guterres nomeou uma Comissão, com vários especialistas, entre os quais os Profs. Correia de Campos e Boaventura de Sousa Santos, que em 1998, publicam o “Livro Branco da Segurança Social”.

Uma das conclusões, que para este efeito importa salientar, diz respeito ao Montante que o Estado já devia à Segurança Social, ex-Caixas de Previdência, dos Privados, pelos “saques” que foi fazendo desde 1975.

O montante apurado até 31 de Dezembro de 1996 era já de 7.300 Milhões de Contos, na moeda de hoje, cerca de 36.500 Milhões €.

De 1996 até hoje, os Governos continuaram a “sacar” e a dar benesses, a quem nunca para lá tinha contribuído, e tudo à custa dos Privados.

Faltará criar agora outra Comissão para elaborar o “Livro NEGRO da Segurança Social”, para, de entre outras rubricas, se apurar também o montante atualizado, depois dos “saques” que continuaram de 1997 até hoje.

Mais, desde 2005 o próprio Estado admite Funcionários que descontam 11% para a Segurança Social e não para a CGA e ADSE.

Então e o Estado desconta, como qualquer Empresa Privada 23,75% para a SS?

Claro que não!…

Outra questão se pode colocar ainda. Se desde 2005, os Funcionários que o Estado admite, descontam para a Segurança Social, como e até quando irá sobreviver a CGA e a ADSE?

Há poucos meses, um conhecido Economista, estimou que tal valor, incluindo juros nunca pagos pelo Estado, rondaria os 70.000 Milhões €!…

Ou seja, pouco menos, do que o Empréstimo da Troika!…

Ainda há dias falando com um Advogado amigo, em Lisboa, ele me dizia que isto vai parar ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Há já um grupo de Juristas a movimentar-se nesse sentido.

A síntese que fiz, é para que os mais Jovens, que estão já a ser os mais penalizados com o desemprego, fiquem a saber o que se fez e faz também dos seus descontos e o quanto irão ser também prejudicados, quando chegar a altura de se reformarem!…

Falta falar da CGA dos funcionários públicos, assaltada por políticos sem escrúpulos que dela mamam reformas chorudas sem terem descontado e sem que o estado tenha reposto os fundos do saque dos últimos 20 anos.

Quem pretender fazer um estudo mais técnico e completo, poderá recorrer ao Google e ao INE.

Fim de Citação.

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Passos Coelho e o medo da insignificância

Após uma ausência de 3 meses e depois da época estival, estava novamente na hora de partilhar as minhas reflexões.

Não posso falar de outro assunto que não seja a atuação do governo. Este assunto enche-nos o dia-a-dia e a alma. Não é possível ficar indiferente ao desempenho do primeiro-ministro e da sua equipa.

Quando há cerca de um ano este Governo tomou posse, senti a determinação do Sr. Primeiro-ministro em encontrar uma solução para a situação de bancarrota em que se encontra o País. Retirando o ruido das habituais picardias entre os vários partidos, a verdade é que se definiu um programa para 2012 de forma a encarar o problema, que tinha o apoio do PS, PSD e CDS, a grande maioria da Assembleia da República.

No meu círculo social há pessoas que se opuseram desde logo às medidas então tomadas. Nestes debates entre amigos sempre defendi que não me pronunciaria sobre as medidas tomadas para 2012, enquanto não visse a execução orçamental. A razão era simples, o problema era demasiado complexo, pois há demasiadas variáveis comportamentais. Era necessário começar por algum lado. Entendi que as medidas do final de 2011 e do orçamento de 2012 eram isso mesmo, o início de um processo para resolver o problema da bancarrota em que estamos. Como é óbvio processos destes são dolorosos e todos nós sentimos, uns mais do que outros.

A meio deste ano ficou claro que o plano não estava a funcionar. Há duas razões básicas para isso. A primeira é que as medidas provocaram uma queda abrupta do consumo e por isso da receita fiscal. A segunda razão, para mim a mais grave, é que o corte da despesa do estado está a ser demasiado lento, o que não permite equilibrar as receitas com as despesas e, como em qualquer casa de família, quando se gasta mais do que se ganha o resultado é sempre a falência.

Face à evidência de que a receita não estava a funcionar, tem-se discutido muito na comunicação social que a solução não é mais austeridade, mas aumentar o ritmo no corte das despesas e afinar as medidas fiscais para se aumentar a receita.

Neste ínterim veio o Tribunal Constitucional pronunciar como inconstitucional o corte dos dois subsídios à função pública. Então todos percebemos que deveria haver mais medidas que permitissem resolver um dos maiores cortes de despesa do estado jamais efetuados, embora à custa dos mais fracos. E todos pensamos que haveria uma série de medidas em que o governo iria aumentar a receita fiscal através de mais impostos, acompanhadas de medidas de corte da despesa.

Na 6ª feira dia 7 de setembro, veio o Sr. Primeiro-ministro anunciar a primeira grande medida. Antes de um jogo de futebol da seleção disse-nos que iria aumentar a contribuição para a Previdência Social em 7%, ficando o governo com 1,25% deste valor e dando às empresas 5,75%.

Mas o tema não ficou por aí. Na 3ª feira, dia 11, também antes do jogo da seleção, veio Sr. Ministro das finanças anunciar mais medidas, e terminou a dizer numa entrevista de que ainda vem mais por aí, não só para resolver o problema de 2013, como teremos mais ainda para 2012 (provavelmente medida idêntica a 2011, outra vez a metade do subsídio de natal).

A sociedade foi rápida a responder. Levantamo-nos todos, trabalhadores, sindicatos e empresários, como por exemplo o Eng. Belmiro de Azevedo ou o Sr. Nuno Carvalho, contra a medida, não importando sequer a simpatia partidária, já que a Dra. Manuela Ferreira Leite encarregou-se de por os pontos nos “is” em entrevista à TVI24. O Primeiro-ministro tinha conseguido uma unanimidade.

Quando todos pensávamos que o Primeiro-ministro e a sua equipa eram extremamente obedientes à Troika, ficámos a saber que o Sr. Abebe Selassie, chefe da missão do FMI, que a ideia peregrina da TSU afinal era de autoria do próprio governo.

Isto levou-me a perguntar, afinal o que é que move o Sr. Passos Coelho? Qual é a sua motivação? O que o leva a ter tudo e todos contra ele?

Cheguei a uma conclusão. Se tem um país todo contra e continua teimosamente pelo mesmo caminho, só o pode mover o MEDO DE SER INSIGNIFICANTE como primeiro-ministro. E não é muito difícil de perceber. Com qual governante é que o Sr. Passos Coelho se compara? Obviamente com o Prof. Cavaco Silva.

Todos sabemos da história partidária do PSD o que se passou entre o Prof. Cavaco Silva e o Sr. Passos Coelho. A mim parece-me que essa história está bem viva na memória do Sr. Primeiro-ministro. E agora tem a oportunidade de se tornar no SALVADOR DA PÁTRIA, de ser melhor que a sombra que reside em São Bento, de ter mais significado para o País do que o Sr. Cavaco Silva, mesmo que não tenha tantas competências académicas.

O pior, como diz o Eng. Belmiro de Azevedo, isto é mesmo navegação à vista. Esta afirmação foi complementada pela Dra. Manuela Ferreira Leite quando disse que governar não é fazer modelos econométricos no computador.

Há realmente uma grande dose de falta de experiência nesta governação. Na área mais sensível de governação temos dois académicos sem experiência empresarial, o Sr. Dr. Álvaro Pereira e o Sr. Dr. Victor Gaspar, e um Primeiro-ministro onde também não se conhece história de gestor de sucesso.

Cometem-se continuamente uma série de erros básicos. O Dr. Victor Gaspar quer controlar a tesouraria das empresas. Não entendo como se pode controlar a contabilidade de todas as empresas, nem pensei que estivesse a viver na Coreia do Norte. E admito que a tentativa que vai ser feita vai bloquear operacionalmente as empresas, quando o governo deveria facilitar-lhes a vida baixando o custo da burocracia.

Por outro lado Primeiro-ministro aconselha o Eng. Belmiro a Baixar preços. Não entendo como economista que é o Sr. Primeiro-ministro poder confundir preços com custos. Qualquer estudante de gestão ou economia sabe que os preços são uma função de mercado e não uma função dos custos de produção. Os custos são relevantes para saber se vale a pena produzir. É que se os custos de produção forem maiores que o preço do mercado, então não vale a pena produzir. Quem define o preço é o mercado. Aliás é um dos “Ps” do Marketing.

Outro exemplo. Os académicos da economia comportamental têm estudos que apontam para estratégias completamente diferentes das utilizadas. Lendo Dan Ariely fica-se a saber que lidamos muito melhor com o sacrifício quando este vem todo de uma vez. Por isso recomenda a estratégia de fazermos logo todos os sacrifícios em vez de ser às prestações.

E o que fez o governo faz? Passa os sacrifícios a conta-gotas. Primeiro o Sr. Primeiro-ministro anuncia a nova TSU. Depois o Sr. Ministro das finanças anuncia mais austeridade. Mas não se fica por aqui, pois terminou dizendo, “isto não é tudo, ainda há mais”. Pergunto: é sadismo ou ignorância?

Mas há mais erros e que são a causa da unanimidade dos portugueses contra o atual governo. Olhando para a Grécia vemos que as ondas sucessivas de austeridade têm provocado uma queda sem precedentes no PIB na receita fiscal do Governo Grego. Tanto assim que o défice está sempre a aumentar e a Grécia negocia neste momento o 3º pacote de ajuda. Aqui, há cerca de 2 meses, tivemos uma entrevista do mesmo quadro do FMI que se pronunciou esta semana, dizendo que “Receitas não são solução para substituir cortes salariais”.

E o que fez o governo faz? Vai aumentar os impostos. Digo impostos porque não acredito que este aumento dos impostos gerem aumento de receita. Quando o Ministro Gaspar diz que prevê uma contração de 1% no PIB para 2013 e a taxa de desemprego em 15,5% é porque teimosamente não percebe que retirar liquidez à população provoca queda no consumo e por isso menos venda, mais recessão, o que vai fechar empresas e vai por mais portugueses no desemprego. Mas como os modelos econométricos do Sr. Ministro das finanças dizem que o PIB cai 1% e a taxa de desemprego vai para 15,5%, então assim será (vá-se lá saber quais são os pressupostos do modelo que o Sr. Ministro Gaspar usa). Agora, sem modelos econométricos e usando a intuição. Sei que não é credível mas a minha aposta é que, com estas medidas, o PIB cai pelo menos 2% e a taxa de desemprego vai para os 16,5% a 17%. Aproveito para atualizar a minha previsão feita com o “nariz” com uma mais fundamentada feita pelo BNP Parisbas, publicada no jornal OJE.

Concluo com a pergunta:

Será que o Sr. Primeiro-ministro por ter medo de se tornar insignificante vai levar-nos ao inferno?

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A Raiz da Corrupção

Hoje não há dia em que a imprensa não fale em corrupção. Há corrupção para todos os gostos. É lavagem de dinheiro, são as grandes corrupções das obras públicas, a corrupção nas autarquias, as pequenas corrupções, quer no setor público, quer no setor privado. É a corrupção desportiva, empresarial e política. É corrupção em todos os tamanhos, cores e feitios.

O engraçado da corrupção é que são sempre os outros. Nunca, ou muito raramente, quem fala de corrupção assume que também ele já pode ter caído em tentação.

Mas para sabermos qual é a raiz da corrupção, temos que começar por defini-la. Afinal o que é corrupção? Uma definição resumida poderia ser: é a utilização de recursos que estamos mandatados para gerir, mas que não nos pertencem, para obter ganhos pessoais.

É ainda necessário dizer que normalmente a prática da corrupção tem quase sempre dois agentes, o corruptor e o corrompido. A discussão de qual dos dois é melhor é fútil. Até porque muitas vezes o corrompido é o agente ativo, oferecendo a oportunidade. Outras vezes é o corruptor que vê a oportunidade e avança.

Mas voltemos à raiz da corrupção. É fácil entendermos que os princípios éticos tentam criar um contexto pacífico, justo e de igualdade de oportunidades. Estes princípios éticos foram elaborados após a experiência de períodos de grande anarquia e corrupção vividos pela humanidade.

Mas estes códigos éticos têm um pressuposto histórico. Só apareceram quando, nós humanos, deixamos de ser caçadores e coletores e nos sedentarizamos. É com a sedentarização que se define a propriedade privada. E é com a sedentarização que formamos comunidades maiores do que na forma de vida anterior. Ao nos fixarmos num espaço delimitado tornou-se necessário gerir duas realidades que anteriormente não existiam, a coisa pública e a coisa privada.

Quando éramos caçadores coletores não havia nem coisa pública e nem coisa privada. Os grupos humanos eram relativamente pequenos, constituídos por todos os tipos de pessoas, crianças, adolescentes, adultos e velhos. Andavam em grupo a caçar e a colher alimentos. Moviam-se devagar dentro de uma área conhecida. Não havia um líder. Havia vários. Havia o líder da caça. Havia o líder dos instrumentos de caça, o da coleta de frutos, etc. Isto é, a liderança era de conhecimento sobre determinado tema e a moeda de troca era o que cada um contribuía com o seu conhecimento para o equilíbrio e o bem-estar do grupo.

Éramos portanto uma miríade de pequenas sociedades coletivas que nem sequer possuíam bens. Portanto não havia corrupção, porque não havia a coisa pública nem ninguém possuía nada individualmente, a não ser o seu conhecimento sobre determinada necessidade e que era utilizado para suprir as necessidades individuais e coletivas. Ou seja, não havia as sementes que fazem florescer as árvores da corrupção.

Com o processo de sedentarização veio a agricultura e tudo isto mudou. A agricultura, por si só, necessita de um espaço delimitado. Aparecem assim os primeiros sentimentos de propriedade. O pedaço de terra em que alguém se esforça para produzir os alimentos que come. Surge então o sentimento de ser o dono daquele pedaço de terra e da produção conseguida com o seu próprio esforço. Começa assim o individualismo.

Com a sedentarização apareceram então novas necessidades jurídicas. A primeira e mais importante foi definir a propriedade. Depois os grupos transformaram-se em tribos e aumentaram de tamanho. Iniciaram-se as disputas por propriedade e por justiça nas trocas. Os que sabiam fazer instrumentos e não sabiam plantar, colher ou criar animais, tinham que trocar o que produziam por alimentos. Aos poucos a sociedade foi-se especializando e era necessário resolver as disputas. Surgiram os chefes, que foram a primeira forma de governo, e que resolviam as disputas.

Chegamos então ao ponto. A raiz da corrupção é a coisa pública. Sendo mais preciso, é a coisa coletiva, que pode ou não ser pública. Uma empresa é uma coisa coletiva, que tem um governo e não é pública. Estamos então na situação em que há pessoas que, por algum meio, têm o poder de gerir, mas não têm a propriedade. É neste momento que surge a oportunidade da corrupção, pois:

  • Alguém com poder mas sem a propriedade, pode utilizar esse poder para obter vantagens a seu favor.

E é sempre nestas condições que surge a corrupção. Por exemplo, um alto funcionário, quer seja deputado, governante, autarca, administrador de empresa cotada na bolsa ou de empresa estatal terá sempre, durante o seu mandato, a oportunidade de exercer o poder e beneficiar desse exercício para obter vantagens pessoais ilícitas. Um agente de autoridade, seja polícia, fiscal ou árbitro desportivo está numa posição em que pode exercer o seu poder em troca de vantagens pessoais.

Como é fácil de perceber, não haverá lei nem policiamento capaz de escrutinar todas as possíveis oportunidades de geração de atos corruptos. A solução não passa por mais leis, nem por mais supervisão, nem por mais polícia. A solução passa por facilitar o entendimento a todos os cidadãos, se há ou não corrupção em determinado atuação ou momento de gestão ou governação. Isto é, haver transparência.

O que estou a dizer é que a legislação complexa e confusa funciona como um acelerador, como adubo da corrupção, pois para se entender que há algo errado, é necessário ter conhecimento muito detalhado da lei, o que somente alguns terão. E não é segredo para ninguém que em Portugal o quadro legal é complexo e confuso. Aliás, até proponho que alguém faça um estudo em que correlacione a complexidade do quadro legal com os níveis de corrupção de cada país. Desconfio que vou ter razão.

Mas então se a solução não são mais leis e mais polícia, qual é então? É haver transparência. E a transparência não se faz com mais leis. Faz-se com menos. Quanto mais fácil for para o cidadão comum perceber as regras do jogo, mais transparência haverá, já que será mais fácil para qualquer pessoa escrutinar o sistema. Para ser mais fácil entender o sistema as leis tem que ser poucas, simples e fáceis de entender.

Sim sei que primamos por ter toneladas de leis e que muitas vezes há leis conflituantes. Sim sei que há códigos e leis, para tudo e para nada. Sim sei que a cada vez que há um problema os nossos legisladores entendem que resolver o problema é criarem logo mais leis para o caso específico, o que nos leva à situação atual. Sim sei que estou a pedir o impossível face à nossa tradição legislativa e comportamental.

Mas ter a ambição de contribuir para uma sociedade melhor, por enquanto, ainda não é crime. Certo, certo é que nunca será um ato de corrupção!

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How #Dell Misleads Customers

On May 9, 2011 I bought a Dell Streak 5 at FNAC Online, in Portugal. It’s not a popular device in Portugal. It’s a 5″ inch hybrid Android-based tablet and phone, as shown in the image below:

Dell Mini 5 Streak
Image taken from http://ucphone.blogspot.pt/2011/01/dell-streak-mini-5.html

There were several factors that made me choose this unit. One of the most important is its size, 5 inches. This is a large phone and a small tablet. For me, the large screen was key. As I have some difficulty in seeing up close, a 5-inch screen was a relief. So,  after four years, I left behind my Nokia E71, still working beautifully, and kept it as a backup phone. Which was good thinking, because now I’m back using the E71.

The story of the problem with Dell begins on May 8, 2012. Up until then  I had no problems with the device. I used it every day as a phone, to check email and read news. It was perfect as a tool in my daily mobile life. Then, on May 7, I got a call from my mother and it was impossible to hear anything she said. I put on the headset, but that was no better. Finally I turned on the speakerphone and was  able to hear the conversation. Before I switched on the speakerphone, my mother had been able to hear me, but I could hear nothing.

Since the phone was still under warranty (in Portugal every device has a 2-year warranty) I called FNAC Online. They told me to go to a FNAC shop to fix the problem.

So I did that. On May 8 I went to FNAC Chiado (Lisbon) and handed in the phone. I took the box and all accessories. FNAC examined  all the equipment but kept only the body of the phone, not taking  the cover, the micro-sd card or the battery. They told me that this was the standard procedure.

On May 29 I received I receive an SMS from FNAC saying “Repair No. 220512 is ready for pickup. Without repair.  Economically unviable …. ”

Upon receiving this message I thought “What? The device works. The defect is only the in-
ear speaker and headphone connector. Why don’t they fix it?” And so I went to see
what happened. Imagine my surprise when I received the Dell’s diagnosis:

They said my phone has moisture and therefore the warranty is void. I felt cheated. I don’t even take my phone into  the bathroom! And still they tell me that is moist – only if it’s the natural humidity of Lisbon! And they send the photo below to show the active humidity sensors:

I refused to accept the phone. I returned it saying I did not accept this diagnosis, and that the sensors must have been  activated during transport or within  Dell’s facilities, as I am very careful with moisture. FNAC returned the equipment to Dell, and we’ll see what happens.

However, because I did not take any pictures of the phone before turning it in (I never thought it would be necessary), I went to the internet to get pictures and videos of the inside of the Dell Streak 5, and what I discovered is that the sensors are identical to mine:

It is easy to see in the two photos above that the lower humidity sensor, which is underneath the battery and therefore is most exposed,  are exactly alike. This sensor can be seen without any tool. Just open the back cover and remove the battery. It is much more exposed to the weather than the second, above, which can only be seen if the phone is disassembled and therefore can be manipulated by those who refuse to honor the warranty.

Apparently in the picture it is that sensor that is activated. The one that is more difficult to access and therefore less subject to climatic factors. It is also the one that we consumers cannot control and therefore easier to manipulate by those who refuse to comply with a warranty.

My question is: how is it that the more exposed sensor is not  activated, and the less exposed one i is?
Answer: given my care with my phones, and the  example is my Nokia E71 from 2007, still in perfect working order, this sensor can only have been activated by the repairer.

This is why I refused to  accept the diagnosis, and returned the phone to Dell. A phone that cost s €349.00 shouldn’t work for just a year and  then breakdown. It‘is unacceptable that large firms like Dell abuse their customers in this way.

Hey Dell, do me a favor: comply with the warranty and give me back the phone in working order. In fact almost everything works, just not the in-ear speaker and headphone connector.

Dell, please honor the warranty and fix my phone. I want the phone working and I don’t want any excuses about moisture. DO NOT DECEIVE ME! BE HONEST!

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Como a Dell engana os clientes

No dia 9 de Maio de 2011 comprei na FNAC online um Dell Streak 5. Não é um aparelho muito conhecido. É um híbrido de tablet e telefone, de 5 polegadas com Android, como se pode ver na imagem abaixo.

Dell Streak mini 5
Imagem retirada de http://ucphone.blogspot.pt/2011/01/dell-streak-mini-5.html

Houve vários fatores que me fizeram decidir por este aparelho. Um dos mais importantes foi o seu tamanho, as 5 polegadas. Trata-se de um telefone grande e de um tablet pequeno. Para mim foi optar por um telefone grande. Como já tenho alguma dificuldade em ver ao perto um ecrã de 5 polegadas foi um alívio. E, depois de 4 anos, deixei o meu Nokia E71, a funcionar lindamente, como telefone de backup. Ainda bem, porque neste momento é o que estou a utilizar.

Mas a história do incumprimento da Dell começa no passado dia 8 de Maio de 2012. Até esta data não tinha tido qualquer problema com o aparelho. Usava-o diariamente como telefone, para verificar o meu email e ler notícias. Perfeito como ferramenta do meu dia a dia. A 7 de Maio recebo um telefonema da minha Mãe e não oiço nada do que diz. Ponho o auricular e nada. Aciono o alta-voz e finalmente consigo ouvir. Descobri que ela me ouvia mas eu não, só em alta-voz.

Como o telefone estava na garantia liguei para a FNAC online e disseram-me para me dirigir a uma loja para resolver o problema.

Assim foi. Na 3ª feira dia 8 de Maio fui à FNAC do Chiado e entreguei o telefone. Levei a caixa e todos os acessórios. Na FNAC receberam o equipamento mas ficaram apenas com o corpo. Não ficaram nem com a tampa, nem com o cartão micro-sd e nem com a bateria. Disseram-me que era esse o procedimento.

Ontem recebo SMS da FNAC dizendo “A reparação nº 220512 encontra-se para levantamento. Sem reparação. Economicamente inviável….”

Ao receber a mensagem pensei: “o quê? O aparelho funciona. Apenas não oiço nem pelo altifalante de ouvido nem por auscultador e não tem reparação?” E lá fui ver o que se passou. Qual a minha surpresa quando recebo o diagnóstico da Dell:

Dizem que o meu equipamento tem humidade e que por isso perdeu a garantia. Senti-me enganado. Eu nem sequer entro na casa de banho com o telefone e dizem-me que está com humidade. Só se for pela humidade de Lisboa. E mandam a foto abaixo a mostrar os sensores de humidade ativos:

 

Recusei receber o telefone e devolvi dizendo que não aceitava tal diagnóstico e que os sensores só ficaram ativos ou no transporte ou nas instalações da Dell, já que tenho muito cuidado com este elemento. A FNAC devolveu o equipamento à Dell e vamos ver o que acontece.

Entretanto, porque não tirei nenhuma foto do telefone antes de enviá-lo (ia lá pensar que seria necessário), fui à internet obter imagens e vídeos de interiores e o que descobri é que os sensores estão idênticos aos meus:

 

Como é fácil de perceber nas duas fotos anteriores o sensor de humidade, mais abaixo, que é o que fica debaixo da bateria e por isso está mais exposto estão exatamente iguais. Este sensor pode ser visto sem qualquer ferramenta. Basta abrir a tampa traseira e remover a bateria. Está por isso muito mais exposto ao tempo que o segundo, mais acima, que só pode ser visto se o telefone for desmontado e por isso pode ser manipulado por quem não quer prestar garantias.

Aparentemente pela foto será esse o sensor que está ativado, o mais difícil de aceder e por isso menos sujeito aos fatores climáticos. É também aquele que nós consumidores não podemos controlar e por isso o mais fácil de manipular por quem não quer cumprir uma garantia.

Pergunto: como é que o sensor mais exposto não está ativado e o menos está? Respondo: tendo eu cuidado com os meus telefones, e o exemplo é o meu Nokia E71 de 2007 estar em perfeito funcionamento, só pode ter sido ativado pelo reparador.

Por isso não aceito o diagnóstico e espero que me devolvam o telefone a funcionar. Um telefone que custou € 349,00 não pode funcionar por um ano e depois simplesmente ir para o lixo. Não é admissível que grandes empresas como a Dell abusem dos consumidores.

Façam o favor de cumprir o contrato de garantia e devolver-me o telefone a funcionar. Aliás funciona quase tudo, apenas não oiço quando o tenho no ouvido e quando uso os headfones.

Dell faça o favor de cumprir a garantia e concertar-me o telefone. Quero o telefone a funcionar e não me venham com desculpas de humidade. NÃO ME ENGANEM! SEJAM HONESTOS!

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O Novo Mundo Multipolar é uma oportunidade para Portugal

Nesta primeira década do século XXI o mundo mudou de forma radical. A mudança é visível e percetível por todos. Mas a dimensão da mudança não é. E muito provavelmente quase não se pensa neste tema. Mas a verdade é que a dimensão da mudança é gigantesca e as implicações na nossa qualidade de vida e na forma como o mundo se organiza são enormes.

O significado dos BRIC
BRIC é o acrónimo para Brasil, Rússia, India e China. É fácil de perceber que estes países pouco têm em comum entre si. No entanto o acrónimo faz sentido do ponto de vista económico, pois é nestes países que reside o crescimento económico mundial.

É isso mesmo. Nestes 12 anos iniciais do século XXI são estes e outros países em desenvolvimento, uns mais do que outros, que têm sustentado o crescimento económico, não o dito primeiro mundo, Europa, EUA e Japão. Este crescimento tem uma causa muito concreta. Os consumidores destes países ambicionam ter o mesmo padrão de vida que europeus, americanos e japoneses. Querem ter uma casa, querem ter um laptop, querem ter um carro, querem ter uma casa de férias, querem ter um iPhone, querem viajar, querem conhecer outras culturas, querem vestir roupa de marca, querem, querem, querem…

Inicialmente os governos e as empresas europeias e americanas perceberam esta avidez consumista como uma oportunidade de exportar produtos e serviços e aumentarem assim a base de clientes de forma rápida e consistente.

Passada esta fase de euforia inicial começa-se a perceber que há outras implicações bem mais profundas. É fácil de perceber a importância que as moedas, principalmente da China e do Brasil, começam a ter na economia mundial. E também é fácil de perceber que o dólar e o euro estão claramente a perder importância, o que é fácil de explicar, já que as empresas europeias e americanas usaram euros e dólares para investir no Brasil e na China. Como tiveram que comprar moeda local com euros e dólares então essa procura fez com que essas moedas se valorizassem face ao euro e ao dólar. Mas esta é só uma das componentes que justifica o aumento de importância do real (Brasil) e do yuan (China). Há muitas outras e o saldo positivo do comércio exterior é outro componente importante.

Mas as semelhanças entre estes mercados acabam aqui. Cada um destes países é bastante diferente dos outros. Tem mercados de consumo muito distintos, ambientes regulatórios completamente diferentes, hábitos de vida o mais diferente possível e sociedades muito diferentes. Isto é, cada um destes países é único no seu contexto social, cultural, legal e económico. E são estas enormes diferenças que configuram a nova realidade de um mundo multipolar, com vários centros.

O Novo Mundo Multipolar
Utilizei o conceito BRIC apenas para relevar este conceito. No entanto este deve ser aplicado a muitos mais países, como a Coreia do Sul, a Tailândia e todas as economias asiáticas que estão em franco crescimento.

O conceito de mundo multipolar do século XXI é a grande rutura com o século XX. Esta é a grande mudança que está em marcha e que ainda não interiorizamos. Já não há um centro do mundo, que associamos ao eixo Europa-EUA. O mundo atual tem muitos centros. E cada centro é muito específico. Com muitas particularidades.

Esta multitude de contextos é claramente uma oportunidade para a flexibilidade e a capacidade de adaptação da nossa cultura. E é um problema, uma barreira, para culturas muito rígidas e com pouca capacidade de adaptação. Para grandes empresas multinacionais com sedes importantes no país de origem. De onde emanam todas as regras e onde se tenta homogeneizar todos os comportamentos, pouco importando o contexto de cada negócio. Cujo fator económico de ganhos de produtividade é a escala.

Ora nós não temos tais estruturas. Não temos tais empresas. A nossa história mostra que convivemos muito bem com a diversidade de raças, credos e costumes. Afinal uma das nossas grandes qualidades é o “desenrascanço”. Basta lembrarmo-nos que em cada caravela holandesa havia sempre um português, que era aquele indivíduo que em situações críticas resolvia os problemas que as mentes estruturadas e previsíveis dos holandeses não conseguiam resolver.

Esta nossa flexibilidade permite-nos em países tão diferentes como o Brasil, a China, a Tailândia, etc., incorporar os talentos locais, associarmo-nos e misturarmo-nos com os empresários locais, entendermos a burocracia local, pois a nossa própria complexidade burocrática dá-nos capacidades que naturais de países de baixa complexidade burocrática não têm.

Trata-se realmente de uma oportunidade para nós. Num mundo multipolar as sedes e a gestão centralizada deixa de fazer sentido. Face à multitude de contextos é impossível haver processos de gestão centrais que funcionem em vários pólos. As culturas locais não o vão permitir.

Imagine-se dizer isto ao conselho de administração de uma empresa multinacional que passou os últimos anos a investir pesadamente em ferramentas informáticas para padronizar a gestão nas várias operações? É muito difícil de aceitar. Afinal investiram-se uns bons milhões para acabar com as diferenças. Mas mais tarde ou cedo vão descobrir que não funciona muito bem, ou não funciona de todo. Algumas operações, deixam de usar os sistemas, ou pior, enganam os sistemas, para fazer face à realidade do contexto local. E tomam decisões que a sede não tomaria, até porque não entende bem o contexto. Isto pressupondo boa fé da gestão local.

Num mundo multipolar configura-se a fragmentação da gestão. Provavelmente as sedes de multinacionais, num futuro próximo, nem mais farão sentido. As multinacionais vão necessitar de organizações mais flexíveis. Talvez passem a ser federações, com vários centros de decisão adequados a cada contexto.

Ora até que cada gigante destes consiga dar este “golpe de rins” levará tempo. É nesse tempo que nós, portugueses, podemos ocupar os espaços económicos em que somos competentes antes que os gigantes se reestruturem e percebam como devem funcionar. E temos que ser rápidos. A dita vantagem dos primeiros em mercados de rápido crescimento económico é muito importante porque permite ganhar distâncias e consolidar posições que depois só com muito investimento será possível. E esse claramente não é o nosso ponto forte. Não temos muito dinheiro para investir.

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