A guerra mundial dos direitos autorais e o PL118 português

A guerra dos direitos autorais é um assunto que se alastra por todos os países. As tentativas de bloquear acessos, cobrar taxas abusivas pela utilização da tecnologia, impedir que controlemos os nossos próprios PCs através da instalação secreta de rootkits, spywares e malwares, ou atos de censura ao estilo dos melhores governos totalitários, mostram apenas que a procissão vai no adro.

Depois de ver o vídeo da palestra de Cory Doctorow em Berlim, percebi que tinha que partilhar este brilhante desempenho. Encontrei uma transcrição feita por Joshua Wise e resolvi traduzi-la e partilhá-la, já que o PL118 não é mais do que uma pequena batalha desta guerra mais ampla. Aqui vai:

Tradução da transcrição feita por Joshua Wise da palestra “The Coming War on General Purpose Computation” de 27-12-2011, dada por Cory Doctorow na última noite da 28C3, The Chaos Computer Congress, em Berlin.

Apresentador:

Enfim, acredito que já esgotei o meu tempo em palco… assim, Senhoras e Senhores, uma pessoa que não necessita de qualquer apresentação, Cory Doctorow!

[Audiência aplaude.]

Doctorow:

[[27,0]] Obrigado.

[[32,0]] Quando faço palestras em locais onde a língua nativa não é o Inglês, há um aviso e um pedido de desculpas, porque eu sou um palestrante rápido por natureza. Quando eu estava nas Nações Unidas, na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, era conhecido como o “flagelo” da equipa de tradução simultânea. Levantava-me, falava e virava-me e nas janelas dos tradutores estes faziam isto [Doctorow vira as palmas das mãos para cima]. [Risos Público] Então, desde já vos peço para acenar quando eu começar a falar demasiado rápido [Doctorow faz movimento SOS], para que possa abrandar.

[[74,1]] A palestra de hoje à noite – uah, uah, Uaaah [[Doctorow simula o som da corneta, aparentemente em resposta ao movimento de SOS da plateia; plateia ri]] – Esta palestra não é uma palestra de direitos autorais. Faço frequentemente palestras de direitos autorais; as questões sobre cultura e criatividade são bastante interessantes, mas sendo honesto, estou cansado. Se vocês querem ouvir escritores freelancer como eu reclamar sobre o que está acontecendo com o nosso modo de ganhar a vida, podem encontrar no Youtube uma das muitas palestras que fiz sobre o assunto. Esta noite eu quero falar sobre algo mais importante – Eu quero falar sobre computadores de uso geral.

Porque os computadores de uso geral são, de fato, surpreendentes – tão surpreendentes que a nossa sociedade ainda não percebeu para o que servem, como acomodá-los e como lidar com eles. Infelizmente, isto leva-me de volta os direitos de autor.

[[133,8]] A forma geral da guerra de direitos autorais e as lições que podemos aprender sobre as lutas futuras do destino a dar ao computador de uso geral são importantes. No início tínhamos pacotes de software, a respetiva indústria e a cópia de disquetes. Tínhamos os disquetes em sacos ou em caixas de papelão, pendurados em ganchos nas lojas e vendidos como barras de chocolate e revistas. Eram fáceis de duplicar e assim eles foram rapidamente duplicados, e muito, para desgosto daquele que produziam e vendiam software.

[[172,6]] DRM versão 0.96. Começou-se a introduzir defeitos físicos nos discos ou a utilizar outros indícios físicos que o software podia verificar – chaves físicas, setores escondidos, protocolos pergunta/resposta que exigiam que se tivesse em posse física de manuais de grande porte, pesados, que eram difíceis de copiar. É claro que estes artifícios falharam, essencialmente por duas razões. Primeiro, eram comercialmente impopulares, porque reduziam a utilidade do software para os legítimos compradores, deixando intocáveis os que copiavam o software sem pagar. Os legítimos compradores ressentiam-se da incapacidade de fazer backups, odiavam a perda das escassas portas dos PCs que eram ocupadas pelas chaves físicas de autenticação e ressentiam-se da inconveniência de ter de transportar grandes manuais quando queriam executar o software. Além disso estes artifícios não pararam os piratas, que descobriram quão trivial era corrigir o software e ignorar a autenticação. O que acontecia era que algum perito com conhecimento tecnológico e grau de sofisticação pelo menos equivalente ao do fabricante do software, utilizava técnicas de engenharia reversa e publicava a forma de ultrapassar as seguranças que, por sua vez, difundiam-se rapidamente. Embora este tipo de conhecimento e tecnologia parecesse altamente especializado, realmente não era; descobrir o que faziam os programas e contornar os defeitos no disco flexível eram habilidades essenciais de programadores de computador, ainda mais na era dos frágeis disquetes e dos duros dias no inicio do desenvolvimento de software. Com a disseminação das redes a preocupação com as estratégias anti cópia aumentaram. Quando apareceram os BBSs, os serviços online, os grupos USENET e as listas de discussão, o conhecimento de quem descobria como ultrapassar os sistemas de autenticação foi empacotado em pequenos ficheiros conhecidos como “cracks” que, com o aumento da capacidade das redes, chegaram às imagens de discos ou programas executáveis, com capacidade de auto disseminação.

[[296,4]] O que nos levou ao DRM 1.0. Em 1996, ficou claro para todos nos corredores do poder, que havia algo importante a acontecer. Estávamos prestes a ter uma economia da informação, o que quer que isso fosse. Assumiu-se que a economia da informação significava a compra e venda de informações. Como a tecnologia da informação aumenta a eficiência, imagine-se o mercado que uma economia da informação teria. Poder-se-ia comprar um livro por um dia, poder-se-ia vender o direito de assistir ao filme para um euro e alugar o botão de pausa por um cêntimo por segundo. Poder-se-ia vender filmes por um preço em um país e por outro num país diferente e assim por diante. As fantasias daqueles dias foram um pouco como uma adaptação chata de ficção científica do livro do Antigo Testamento dos Números, uma espécie de enumeração tediosa de todas as permutações possíveis que as pessoas fazem com a informação e as formas que poderíamos cobrar por isso.

[[355,5]] Mas nada disso seria possível se pudéssemos controlar o modo como as pessoas usam os seus computadores e os arquivos (ficheiros) que transferirmos para eles. Afinal, seria bem bom vender a alguém o direito de utilizar um vídeo por 24 horas, ou o direito de mover a música para um iPod, mas não o direito de circular a música do iPod para outro dispositivo. Mas, raios, como poderíamos faz isso uma vez que fornecemos o arquivo? Para isto funcionar é necessário descobrir como impedir que os computadores executem certos programas e inspecionar determinados arquivos e processos. Por exemplo, pode-se criptografar o arquivo e depois exigir que o usuário execute um programa que só desbloqueia o arquivo sob determinadas circunstâncias.

[[395,8]] Mas como se diz na Internet, “agora temos dois problemas”. Agora temos também que impedir que o usuário salve o arquivo enquanto não foi utilizado, além de impedir que se descubra onde o programa guarda as chaves de acesso, porque se estas chaves forem encontradas, retira-se a criptografia e joga-se fora a estúpida aplicação (app) que toca a música ou exibe o filme.

[[416,6]] E agora temos três problemas [plateia ri], porque agora temos que impedir que os usuários descubram partilhar o arquivo não usado com outros usuários e então já temos quatro problemas, porque temos que impedir os usuários que descobriram como desbloquear o programa, de partilhar essa informação com outros; e agora temos cinco problemas, porque agora temos que impedir os usuários que descobriram como extrair segredos de programas desbloqueados, de partilhar esse segredo!

[[442,0]] Isto são um monte de problemas. Mas em 1996, tínhamos uma solução. Tivemos a WIPO Copyright Treaty, aprovada pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual das Nações Unidas, que criou leis que tornaram ilegal extrair segredos de programas desbloqueados, e criou leis que tornaram ilegal extrair textos não encriptados (cleartexts) dos programas de desbloqueio enquanto eles executam, e criou leis que tornaram ilegal dizer às pessoas como extrair segredos de programas de desbloqueio, e criou leis que tornaram ilegal armazenar trabalhos com direitos autorais e segredos e tudo com um processo simples que permitem que se retire o material da Internet sem ter que andar com advogados e juízes e toda a parafernália legal. E com isso, a cópia ilegal terminou para sempre [risos plateia muito difícil, aplaude], a economia da informação floresceu numa bela flor que trouxe prosperidade para o mundo todo, como eles dizem nos porta-aviões, “Missão Cumprida”. [Plateia ri]

[[511,0]] Bem, é claro que não é como a história termina, pois praticamente para qualquer um que entenda de computadores e redes, estas leis criariam mais problemas dos que resolveram. Afinal eram as leis que tornariam ilegal olhar para dentro de nosso computador quando estaria a executar determinados programas, que tornariam ilegal dizer às pessoas o que encontramos quando olhamos para dentro do nosso computador, em resumo tornariam mais fácil censurar o material na Internet sem ter que provar que nada de errado havia acontecido, isto é, fizeram exigências irrealistas sobre a realidade e a realidade não os compromete. Afinal de contas, a cópia só ficou mais fácil após a passagem destas leis – copiar só vai ficar mais fácil! Hoje em 2011, esta é a grande dificuldade em copiar! No futuro, os nossos netos, à volta da mesa de Natal, voltar-se-ão para nós e dir-nos-ão: “Diga-me outra vez, Avô, diga-me outra vez, Avó, conte-me quanto era difícil copiar coisas em 2011, quando vocês não podiam obter um dispositivo do tamanho de uma unha que pudesse manter todas as músicas já registradas, todos os filmes já feitos, cada palavra dita, todas as imagens já feitas, tudo, e transferi-los em um período de tempo tão curto que nem nos apercebemos que estaríamos a fazer isso, diga-nos novamente quando era tão estupidamente difícil copiar as coisas em 2011”. E assim a realidade se afirmou, e todos deram uma boa risada sobre quão erradas eram as nossas ideias no início do século 21, e depois uma paz duradoura foi alcançado com a liberdade e prosperidade para todos. [Plateia ri].

[[593,5]] Bem, não realmente. Porque, como a canção de ninar onde necessitamos de uma aranha para apanhar uma mosca, e depois de um pássaro para apanhar a aranha, e um gato para apanhar o pássaro, e assim por diante, assim tem que ser uma regra que se quer de aplicação ampla, mas que, geralmente é desastrosa na sua aplicação, que gera uma nova regra destinado a resolver o fracasso da antiga. É tentador parar a história aqui e concluir que o problema é que os legisladores são ignorantes ou mal-intencionados ou, possivelmente, ambos e apenas deixá-los lá, o que não é um lugar muito gratificante para ir, porque é fundamentalmente um conselho de desespero. Isto sugere que os nossos problemas não podem ser resolvidos enquanto a estupidez e a maldade estiverem presentes nos corredores do poder, o que significa dizer que eles nunca serão resolvidos. Mas tenho outra teoria sobre o que se passou.

[[644,4]] Não é que os reguladores não entendem de tecnologia da informação, porque deve ser possível não ser um especialista e ainda assim fazer boas leis. Os políticos são eleitos para representar os distritos e as pessoas não, disciplinas e assuntos. Não temos um membro do Parlamento para a bioquímica, não temos um senador do grande estado do planeamento urbano e não temos um deputado do bem-estar infantil (mas talvez devêssemos). E aquelas pessoas que são especialistas em política e não em disciplinas técnicas, conseguem no entanto, muitas vezes, passar boas regras que fazem sentido, isto porque o governo se baseia em heurísticas – regras de bom senso, sobre como equilibrar a entrada de especialistas de diferentes lados de uma questão.

[[686,3]] Mas a tecnologia da informação confunde essas heurísticas – ela retira o que não interessa da conversa – de uma maneira importante. Um teste importante para verificar se uma regra é adequada a um propósito é ver se funciona, mas depois é necessário verificar-se se não terá implicações e muitos outros temas. Se quiséssemos que o Congresso, o Parlamento ou a União Europeia escrevessem uma regra para regular uma roda, seria improvável ter qualquer sucesso. Se disséssemos “bem, todos sabemos que as rodas são boas e corretas, mas já repararam que os ladrões de bancos têm quatro rodas no seu carro quando vão assaltar bancos? Não podemos fazer algo sobre isso? “, a resposta seria obviamente “não”. Porque não sabemos como fazer uma roda que seja geralmente útil para aplicações legítimas da roda, mas inútil para bandidos. E todos podemos ver que os benefícios gerais da utilização das rodas são tão profundos que seria tolo legislar sobre rodas para parar assaltos a bancos. Mesmo se houvesse uma epidemia de assaltos a bancos, mesmo se a sociedade estivesse à beira do colapso devido a assaltos a bancos, ninguém pensaria que legislar sobre as rodas seriam o instrumento adequado para resolver os nossos problemas.

[[762,0]] Mas, se eu aparecesse a dizer que tinha provas absolutas de que os telefones de mãos livres tornam os carros perigosos e dissesse: “Gostaria que passassem uma lei que diz que é ilegal a venda de carros com telefones de mãos-livres”, o regulador poderia dizer: “Sim, tomei nota do seu ponto, faremos isso”. Podemos discordar sobre se esta é ou não uma boa ideia, se a minha prova faria ou não sentido, mas muito poucos de nós diriam “bem, uma vez que se retire os telefones dos carros, os carros deixam de ter utilidade”. Entendemos que podemos manter os carros como carros mesmo depois de remover alguns recursos. Os carros têm propósito específico, pelo menos em comparação com as rodas, e tudo o que a adição de um telefone de mãos-livres faz é por mais um recurso numa tecnologia já especializada. Na verdade, há aqui uma heurística que podemos aplicar: as tecnologias com objetivo específico são complexas. Podemos retirar recursos, sem violar fundamentalmente a sua utilidade subjacente.

[[816,5]] Esta regra serve bem os reguladores, em geral, mas não se aplica ao computador de uso geral e nem à rede de uso geral – o PC e a Internet. Porque se pensarmos no software como um recurso, um computador com uma folha de cálculo em execução tem a característica de uma folha de cálculo, mas se estiver a executar o World of Warcraft então o computador é um recurso de MMORPG (Massive Multiplayer Online Role-Playing Game). Esta heurística leva-nos a pensar que seria razoável “produzir um computador que não executasse folhas de cálculo”, e que não seria um ataque à computação maior do que “produzir um carro sem um telefone mãos-livres” seria um ataque aos carros. Se pensarmos em protocolos e sites como recursos da rede, dizer que “corrigir a Internet para que não permita executar o BitTorrent”, ou “corrigir o Internet para que o site thepiratebay.org não resolva os endereços”, seria como “alterar o som do sinal de ocupado”, ou “tirar a pizzaria da esquina da rede telefónica”, e não um ataque aos princípios fundamentais da Internet.

[[870,5]] Não perceber que essa regra de ouro, que funciona para carros, casas e para outras substanciais áreas sujeitas à regulação tecnológica, falha quando aplicada à Internet não faz com que as pessoas sejam más, mas faz delas ignorantes. Farão parte da grande maioria para quem os conceitos fundamentais da computação – “Turing-complete” e das redes – “end-to-end” não têm qualquer significado. Assim, os nossos reguladores vão alegremente passando estas leis e tornam-se parte da realidade do nosso mundo tecnológico. De repente há números que deixamos de ter permissão de escrever na Internet, programas que não estamos autorizados a publicar, e tudo o que é preciso fazer para retirar da internet material legítimo é dizer “Isso? Isso viola direitos autorais.” Desta forma falha-se o principal objetivo real da regulação, não se impede a violação dos direitos autorais, mas cria-se a falsa e superficial sensação de que os direitos de autor estão protegidos – e satisfaz-se o silogismo de segurança: “algo deve ser feito, eu estou fazendo algo, algo deve ser feito.” E assim, para quaisquer falhas que surjam pode-se dizer que as leis não foram suficientemente longe em vez de se perceber que a ideia estava errada desde o seu início.

[[931,2]] Este tipo de semelhança superficial e a divergência subjacente acontece em contextos engenharia. Eu tenho um amigo que já foi um executivo sénior numa grande empresa de bens de consumo, que me contou o que aconteceu quando o departamento de marketing disse à engenharia que tinham tido uma ótima ideia para detergente: os engenheiros deveriam inventar um detergente que fizesse com que a roupa ficasse como nova a cada vez que fosse lavada! Depois dos engenheiros terem tentado, sem sucesso, transmitir o conceito de “entropia” ao departamento de marketing [platéia ri], chegaram a uma outra solução – “a solução”. Desenvolveram um detergente com enzimas que eliminavam as fibras soltas, aquelas que fazem com as roupas pareçam velhas. Assim, sempre que se lavasse a roupa com “a solução”, estas pareceriam mais novas. O detergente digeria, literalmente, a roupa! Usar o detergente causaria a dissolução da roupa na máquina de lavar! Isto era o oposto de tornar as roupas mais novas. Em vez disso envelhecia-se artificialmente as roupas a cada lavagem e, quanto mais se usar a “solução”, mais drástico será o efeito para que fiquem com aparência mais nova, até que se tenha que ir comprar roupas novas porque as antigas se desfizeram.

[[1.012,5]] Hoje temos departamentos de marketing que dizem coisas como “nós não precisamos de computadores, precisamos … eletrodomésticos. Faça-me um computador que não execute todos os programas, apenas um programa que faça uma tarefa especializada, como streaming de áudio, ou roteamento de pacotes, ou jogar jogos de Xbox, e que verifique que não executa programas que eu não autorizei e que possam prejudicar os nossos lucros”. E na superfície, esta parece ser uma ideia razoável – apenas um programa que faz uma tarefa especializada – afinal, podemos colocar um motor elétrico num liquidificador, e podemos instalar um motor em uma máquina de lavar louça, e não se preocupe, pois ainda será possível executar um programa de lavar louça em um liquidificador. Mas não é isso que fazemos quando transformamos a computador em um eletrodoméstico. Nós não estamos a fazer um computador que executa apenas o programa “eletrodoméstico”, estamos a fazer um computador que pode executar todos os programas, mas que utiliza uma combinação de rootkits, spyware e assinatura de código para impedir que o usuário saiba quais os processos que estão em execução, que instale o seu próprio software e que elimine os processos que não quer. Em outras palavras, um eletrodoméstico não é um computador despojado – é um computador totalmente funcional que já vem de fábrica com spyware.

[Platéia aplaude] Obrigado.

[[1.090,5]] Como não sabemos construir um computador de uso geral que seja capaz de executar qualquer programa com exceção daqueles que não gostamos, ou proibimos por lei, ou perdemos dinheiro. A melhor aproximação que temos a este conceito, é um computador com spyware – um computador em que terceiros definem políticas de utilização sem o conhecimento do dono do computador. E é deste modo que a DRM (digital rights management) acaba sempre por convergir em malware.

[[1.118,9]] Houve, é claro, este famoso incidente, uma espécie de presente para as pessoas, em que a Sony carregou secretamente instaladores de rootkit em 6 milhões de CDs de áudio, que secretamente executavam programas que impediam o computador de ler o arquivos de som dos CDs, encerrando-os, e que também escondeu a existência de rootkit, fazendo com que o kernel mentisse sobre que processos estavam em execução e que ficheiros existiam no CD. Mas não é o único exemplo. Recentemente a Nintendo lançou a 3DS, que oportunisticamente atualiza o firmware e faz uma verificação de integridade para se certificar de que o dono da consola não alterou o firmware antigo e, se detetar sinais de adulteração, bloqueia-se.

[[1.158,8]] Ativistas dos direitos humanos levantaram avisos sobre U-EFI, o novo bootloader (programa que carrega o sistema operativo) para os PCs, e que obriga um computador a funcionar apenas com sistemas operativos certificados, nada que governos repressivos não possas obviar a menos que tenham operações de vigilância secretas.

[[1.175,5]] E do lado da rede, tentar que material que infrinja os direitos autorais não possa passar numa rede, acaba sempre em medidas de vigilância semelhantes à de governos repressivos. O projeto de lei SOPA – a lei dos EUA contra a pirataria, proíbe a utilização de ferramentas como DNSSec porque pode ser usado para eliminar as medidas de bloqueio de DNS. E bloqueia ferramentas como o Tor, porque podem ser utilizadas para contornar as medidas de bloqueio do IP. Na verdade os defensores do SOPA, a Motion Picture Association of America (MPAA), circulou um memorando, citando pesquisas indicando que o SOPA provavelmente iria funcionar, porque usa as mesmas medidas que são usados na Síria, China e Uzbequistão, argumentando que se essas medidas são eficazes nesses países, também seriam eficazes nos EUA!

[Platéia ri e aplaude] Não me aplaudam, aplaudam a MPAA!

[[1.221,5]] Agora, pode parecer que o fim do SOPA é o fim do jogo, da longa luta por direitos de autor e da Internet, e pode parecer que derrotando o SOPA, estaremos a garantir a liberdade dos PCs e das redes. Mas como eu disse no início desta palestra, não se trata de direitos de autor, porque as guerras de direitos autorais são apenas a versão beta 0.9 da longa guerra da computação que vem aí. A indústria do entretenimento é apenas a primeira onda de beligerantes no próximo conflito secular. Tendemos a pensar nisto como um sucesso – afinal é o SOPA, tremendo à beira da passagem e destruindo a internet a um nível fundamental em nome da preservação do Top 40 da música, dos reality shows e dos filmes do Ashton Kutcher! [Risos, aplausos dispersos]

[[1.270,2]] Mas a legislação de direitos autorais vai tão longe precisamente porque não é levada a sério, razão pela qual, por um lado, o Canadá tem, Parlamento após Parlamento, vindo a apresentar projetos de lei de direitos autorais estúpidos, uns a seguir aos outros. Renovação após renovação, o Parlamento nunca conseguiu realmente votar um projeto. É por isso que temos o SOPA, um projeto de lei composto por estupidez pura, molécula a molécula, uma espécie de “Estupidez 250”, que é normalmente encontrado apenas no coração da estrela recém-nascida, e é por isso que as audiências apressadas do SOPA tiveram que ser suspensas no meio do feriado de Natal, de modo a que os legisladores possam concentrar-se em assuntos que são realmente importantes, como o seguro-desemprego. É por isso que a Organização Mundial da Propriedade Intelectual está enganada em promulgar propostas ignorantes de direitos de autor porque, quando as nações do mundo enviam as suas missões para a ONU em Genebra, enviam especialistas em água e não especialistas em direitos autorais; enviam especialistas em saúde e não especialistas de direitos autorais; enviam especialistas em agricultura e não especialistas em direitos autorais, pois os direitos de autor não são realmente importantes para a maioria das pessoas! [Aplausos]

[[1.350,3]] O Parlamento do Canadá não votou as suas propostas de lei de direitos autorais porque, de todas as coisas que o Canadá precisa de fazer, resolver o problema dos direitos autorais tem uma prioridade bem mais abaixo do que resolver as emergências de saúde nas reservas indígenas, explorar o oleoduto em Alberta, interceder sobre os ressentimentos sectários entre francófonos e anglófonos, resolver a crise no sector das pescas e mil outras questões! A trivialidade dos direitos de autor fica evidente, quando outros setores da economia começam a evidenciar preocupações com a Internet e com o PC, os direitos de autor tornam-se numa pequena escaramuça e não numa guerra. Por que outros setores nutrem rancores contra os computadores? Bem, porque o mundo em que vivemos hoje é feito de computadores. Nós não temos mais carros, temos comutadores que andam; não temos mais aviões, temos caixas voadoras Solaris com um grande conjunto de controladores SCADA (Supervisory Control and Data Acquisition) [risos]; uma impressora 3D não é um dispositivo, é um periférico, e só funciona conectado a um computador; um rádio já não é um cristal, é um computador de propósito geral com um rápido conversor ADC (conversor analógico para digital) e um rápido conversor DAC (conversos digital para analógico) e mais algum software.

[[1.418,9]] As queixas que surgem por cópia não autorizada são triviais, quando comparadas com a nova realidade, totalmente baseada em computadores, que está a ser criada. Pensemos no rádio por um minuto. A regulação do rádio, até hoje, tem baseia-se na ideia de que as propriedades de um rádio são fixadas no momento da produção e que estas não podem ser facilmente alteradas. Não podemos simplesmente pressionar um botão e passar da escuta de mensagens à emissão, algo que interfere com sinais de controlo do tráfego aéreo. Mas os softwares que implementam rádios (SDR) podem mudar estas definições, para emitir sinais de emergência para o controlador de tráfego aéreo, apenas pela execução de rotinas específicas, razão pela qual o regulador americano das telecomunicações (FCC), pela primeira vez, considerou o que aconteceria com a utilização do SDRs. Pediram que se comentasse se deveriam obrigar a que todo o SDR fosse instalado em computadores certificados. Em última análise, se cada PC deveria ser bloqueado, para que todos os programas que executam pudessem ser regulados pelas autoridades centrais.

[[1.477,9]] E mesmo isto é apenas uma sombra do que está por vir. Afinal, este foi o ano da estreia de programas open-source que permitem converter um rifle AR-15 de uso civil numa arma totalmente automática de uso militar. Este foi o ano em que a multidão anónima financiou equipamento open-source para a sequenciação genética. E enquanto a impressão 3D dará origem a inúmeras queixas triviais, não haverá juízes na América do Sul e mulás do Irão que ficarão em stress, quando as pessoas, na sua jurisdição, imprimirem brinquedos sexuais. [Gargalhada da plateia] A trajetória da impressão 3D certamente vai levantar queixas reais, desde os laboratórios produtores de metafetaminas, até às facas de cerâmica.

[[1.516,0]] E não é preciso ser um escritor de ficção científica para entender por que os reguladores estão nervosos sobre o firmware modificável pelo usuário nos carros auto pilotados, ou na limitação da interoperabilidade dos controladores de voo, ou com o que será possível fazer com montadores e sequenciadores biológicos. Imagine o que acontecerá no dia em que a Monsanto determine que é realmente… realmente… importante certificar-se que os computadores não podem executar programas que utilizam periféricos especializados que produzam os organismos que comam literalmente o almoço (as receitas) da Monsanto. Independentemente de saber se achamos que estes são problemas reais ou simplesmente medos histérico, eles são, contudo, a província dos lobbies e grupos de interesse que são muito mais influentes do que Hollywood nos seus melhores dias, e cada um deles terá o mesmo comportamento – “não se pode simplesmente fazer um computador de uso geral que executa todos os programas, exceto os que nos assustam? Não se pode fazer uma Internet que transmita qualquer mensagem sobre qualquer protocolo entre quaisquer dois pontos, exceto os que nos perturbam?”

[[1.576,3]] Pessoalmente, creio que não haverá programas executados em computadores de uso geral e periféricos que ainda me assustem. Eu acredito que as pessoas que advogam a limitação dos computadores de uso geral encontrarão audiência para as suas posições. Mas do mesmo modo que as guerras de direitos autorais que proíbem certas instruções, ou protocolos, ou mensagens, estas serão totalmente ineficazes como meio de prevenção e remédio. E tal como vimos nas guerras de direitos autorais, todas as tentativas de controlar os PCs irão convergir em rootkits e todas as tentativas de controlar a Internet irão convergir em controlo e censura. É por isso que tudo isto importa. Porque passamos os últimos 10 ou mais anos a enviar os nosso melhores jogadores para combater com o grande chefe, o que pensávamos ser a etapa final do jogo, para simplesmente percebermos que afinal era só mais uma etapa e a batalha era apenas com um mini-chefe do final do nível. As apostas só vão aumentar.

[[1.627,8]] Como membro da geração Walkman, já aceito o fato de que vou usar um aparelho auditivo muito antes de morrer e, claro, não será um aparelho auditivo, será um computador. Colocarei um computador no meu corpo. Quando entrar num carro – que é um computador onde vou colocar o meu corpo – com o meu aparelho auditivo – um computador que coloquei dentro do meu corpo – quero saber se essas tecnologias não estão desenhadas com segredos que eu não conheça e que me impeçam de encerrar os processos que trabalham contra os meus interesses. [Aplausos vigorosos da audiência] Obrigado.

[[1.669,4]] Obrigado. No ano passado, a escola do Distrito Lower Merion, um bairro de classe média da Filadélfia, teve inúmeros problemas, pois descobriu-se que distribuiu, aos seus alunos, PCs equipados com rootkits que permitiram uma discreta vigilância remota através câmara do computador e da conexão à internet. Verificou-se que tinham fotografado milhares de vezes aos alunos, em casa e na escola, acordados e a dormir, vestidos e nus. Enquanto isso, a última geração de tecnologia de interceção legal pode operar secretamente câmaras, microfones e GPS em PCs, tablets e dispositivos móveis.

[[1.705,0]] A liberdade no futuro vai exigir que nós tenhamos a capacidade de monitorar os nossos equipamentos e definir as políticas de segurança e privacidade, para examinar e encerrar os processos que executam, de forma a mantê-los como servos honestos à nossa vontade e não como traidores e espiões trabalhando para criminosos, assassinos e maníacos por controlo. E não perdemos ainda, mas temos de ganhar a guerra de direitos autorais para manter a Internet e o PC livre e aberto. Porque estes são os materiais das guerras que estão por vir e não seremos capazes de lutar sem eles. Eu sei que isso soa como um conselho desesperado, mas como disse, estes são apenas os primeiros dias. Temos vindo a lutar contra o mini-chefe e isso significa que os grandes desafios ainda estão por vir, mas como todos os bons designers, o destino deu-nos um alvo fácil para treinar e temos organizações que lutam pela liberdade – FEP, Bits of Freedom, Edri, CCC, Netzpolitik, La Quadrature du Net, e todos os outros, que felizmente são numerosos demais para poder citá-los aqui – ainda podemos ganhar a batalha e ter a munição que vamos precisar para a guerra.

[[1.778,9]] Obrigado.

[Aplausos prolongados]

Sobre Julio Garcia

Interessado em comportamento humano, marketing social, redes sociais, inteligência coletiva e como o design afeta o comportamento. Interest in human behavior, social marketing, social networks, collective intelligence and how the design affects human behavior.
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